quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O bar família

Às vezes, a única coisa que queremos num bar é sossego. Você chega, pega sua cerveja e vai para o seu canto, pode até bater um papo com o pessoal que está lá, mas tudo é muito tranquilo e calmo. Não se quer burburinho ou aquela coisa de ver e ser visto, aliás, a última coisa que se quer em certos momentos é ser visto. Por quê? Não precisa de motivo, você só quer beber sua cerveja e ficar em paz.
Frequento um bar que é perfeito para dias como esses: Bar e Mercearia Taylor ( rua Taylor, 36 térreo). Conheci o estabelecimento faz uns quatro ou cinco anos, quando subia para casa. Passava por ali e olhava o jeito do lugar: as três portas de correr, os azulejos, o pé-direito alto, o grande balcão em U (o lado esquerdo de quem entra é bar e o direito, mercearia), o espaço de circulação, o pessoal vendo jornal ou novela na TV do bar e a rua pacata. Numa tarde de verão, entrei e pedi uma cerveja. Fiquei na minha, olhando a paisagem árida do centro da cidade. Puxei uma conversa com quem estava ali, o pessoal conversou, um pouco ressabiado, pois nunca tinha me visto. Mas o tempo foi passando e eu parava ali uma, duas ou até três vezes por semana, e fui conhecendo as pessoas. Aquele pedaço de rua se resume a uns poucos edifícios (dos grandes), os clientes em sua maioria moram ali há muitos anos. Por todos se conhecerem, o ambiente é quase de vila. Como em todo bar, é possível se conversar sobre quase qualquer assunto: política, economia, informática, o que vier o pessoal traça. Volta e meia, tem um ou outro que fala mais alto, mas é ocasional, e jamais vi um bate-boca ou uma briga. O bar é uma extensão da casa daquela gente. É um bar família no melhor sentido que essa palavra pode ter.
O dono é o Paulo Cezar, o PC, 46 anos, casado duas vezes, dois filhos, que comprou o estabelecimento há 17 anos. Trabalhando sozinho e neurótico com limpeza, cuida do lugar como se fosse a própria casa; o balcão e o piso estão sempre brilhando. Pensando bem, aquilo é a casa dele, passa mais tempo ali que no aconchego do lar. Por ter morado na Lapa quase toda vida, conhece todos os clientes pelo nome e tem muita história para contar, outro dia ele me disse que viu o Madame Satã quando era pequeno: “Era um senhor negro, velhinho e magro, mas todo mundo sabia quem era. Ele era amigo de uma senhora que era dona dessa casa aqui de baixo. Minha avó me mostrava, com discrição: Olha lá o Madame Satã.” Todo mundo tem conta lá, mesmo que nunca tenha colocado nem um copo d’água no pendura: “Até você também tem, só que não usa. Olha o seu nome aqui na prancheta”. E tava lá o meu nome, sem nenhum valor escrito ao lado.
Embora o PC não beba ou fume nem jamais tenha tocado em qualquer droga, ele é chocólatra e sedentário confesso, o que lhe rendeu uma hipertensão. De vez em quando se sente mal, com dor de cabeça e estressado, a turma toda fica preocupada. Diversas vezes cheguei lá e ele não estava. “Ué, cada o cara?”, pergunto. E a resposta que vem de trás do balcão é invariavelmente a mesma “Teve que dar uma saidinha para ver uns negócios ali embaixo, mas o que você quer? Cerveja? Qual?”. O PC deixa o bar aos cuidados de quem estiver por ali, em geral, é uma pessoa de confiança. Até eu já fiquei atrás daquele balcão uma vez.
Lá não há acepipes, escondidinhos ou coisas pops desse gênero, mas batatinhas fritas industrializadas, tremoços, salame, queijo prato etc. Quem quer ir num bar para comer as tão faladas “comidas de boteco” da moda, na verdade, quer ir a um restaurante. E esse não é o caso. Mas o curioso no Taylor é que as guloseimas que têm mais saída são o bolo de chocolate e o pudim de leite condensado (feitos em casa); lembrem que o PC é viciado em doce. Com relação às bebidas: a cerveja é gelada e o preço, normal; e ainda têm aquelas cachaças comuns e outras coisas para fazer um rabo de galo ou coisa parecida. Lendo esse texto, o observador desavisado pode pensar: qual é o grande atrativo desse lugar? E a resposta é simples: calma, tranquilidade, cadeira na calçada e cerveja.

Um comentário:

Renato disse...

Muita gente procura isso num bar: sossego, serviço sem frescura ou distração.
Um lugar para beber, ouvir os outros e escutar os próprios pensamentos.
Aguardo novas descobertas,